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Fernando Pessoa e a transpiração literária

 

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

 

Um dos maiores escritores de língua portuguesa, Fernando Pessoa tem como característica principal o uso da heteronímia em suas composições poéticas.

Mas qual é afinal o significado deste termo? Pode-se dizer que é algo semelhante ao que entendemos como pseudônimo mas com a diferença de que o heterônimo possui traços próprios da sua personalidade, é inserido em um contexto histórico, possui um passado que o modelou para o presente… ou seja, ele tem uma vida própria.

E o autor que melhor trabalhou esse recurso, foi sem dúvida Fernando Pessoa. Seus heterônimos mais conhecidos são: Álvaro de Campos, Ricardo Reis, Alberto Caieiro e o heterônimo Fernando Pessoa – é complexo, mas ele criou um heterônimo com o próprio nome – .

Neste texto a heteronímia será pensanda através da análise de dois poemas escritos com heterônimos distintos. Entretanto, para que este objetivo seja alcançado é necessário voltar para as vozes que estão por trás disso.

A obra de Fernando Pessoa é o ápice do que vinha sendo pensado e discutido sobre produção literária por diversos autores. A idéia romântica de que o autor nada mais era que um gênio, um iluminado, um ser dotado de sensibilidade orgânica superior à comum[1], foi sendo repensada e contradita por vários autores que dentre eles se destacam inicialmente Willian Wordsworth, S. T. Coleridge, passando por T. S. Eliot, Edgar Allan Poe e posteriormente Umberto Eco.

De forma geral, tais autores, através da explicação do próprio processo de composição, defendem a idéia de que para se produzir uma obra literária é necessário muito mais “transpiração” que inspiração. Isso quer dizer que pensar, analisar, estudar e trabalhar muito em cima de um texto poético ou ficcional é fator primordial para que este seja um bom trabalho[2].

Além disso, alguns desses autores deixam claro que não existe a necessidade de se ter vivido certa circunstância ou sentido certa emoção para que se possa falar sobre ela. O texto deve ser arranjado de tal maneira (e tal arranjo é minuciosamente pensado e trabalhado em diversos níveis como: extensão, beleza, tom, refrão, etc.) que é o leitor que deve se emocionar com o que está lendo. Com tanta precisão, não é inclusive recomendável que o autor esteja falando de sentimentos que sentiu, mas sim ficcionalizar, organizar o texto da melhor maneira a fim de provocar o efeito desejado no leitor.

Fernando Pessoa foi um escritor que, por ter sido alfabetizado em inglês na África do Sul, sua educação literária é de tradição inglesa e pode-se dizer que ele bebeu na fonte dos pensadores ingleses[3] citados acima e que era contrário a idéia do romantismo latino no qual a inspiração era a principal explicação para um processo criativo.

Logo, longe de entender seu processo de criação e de heteronímia como um dom, um presente dos deuses, certa vez declarou em uma carta[4] algumas possíveis explicações para o fato de conseguir dar nome, características próprias, estilo de escrita, ambientes, histórias, amores, ideologias, etc. a cada um de seus heterônimos de forma tão convincente. Tais explicações descabidas começam quando ele afirma que pode ser que ele seja um histérico, ou melhor dito, um “histero-neurastênico”, doença que o leva a uma tendência natural à despersonalificação[5] e à simulação. Esta é uma explicação racional e médica para sua forma de escrita, entretanto Pessoa segue dando explicações que passam por características da sua infância, até finalizar com outras baseadas no esoterismo. Nesta carta percebe-se claramente que a intenção de Fernando Pessoa é confundir o seu leitor, mostrando-lhe as várias explicações possíveis para o processo de escrita, sendo nenhuma delas verdadeiramente convincente.

A publicação dos poemas “Autopsicografia” e “Isto” mostram o que de fato Pessoa pensava a cerca de heteronímia e de recepção de seus poemas. Ao declarar que o poeta é um fingidor em “Autopsicografia” o autor mostra estar em consonância com Eliot no que diz respeito ao fato de que o que está escrito não necessariamente é o que se viveu, mas o que se poderia ter vivido.

O poeta “finge”, ou seja, ficciona, cria a possibilidade de algo ter acontecido. E ao fingir bem, convence a quem lê. Toda essa teoria fica ainda mais clara em “Isto” quando afirma que ele “sente com a imaginação” e finaliza dizendo “Sentir? Sinta quem lê”.

A criação, portanto, dos heterônimos é Fernando Pessoa levando todas estas teorias às últimas conseqüências: é a concretização máxima do que vinha sendo dito a cerca do poeta não precisar ter vivido um fato para poder falar de forma verossímil sobre ele. Atentando-se somente em três deles: Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis pode-se perceber o quanto a imaginação é primordial para a composição.

Pessoa cria para cada um de seus heterônimos além de tipos físicos diferentes, um estilo de escrita, um ambiente, gostos, filosofias, angústias, etc. E é incrível perceber como é articulado o encontro desses “personagens”. Pode-se tratá-los como personagens porque, apesar de escreverem poemas, o leitor pode acompanhar que eles se encontraram, conversaram e se admiraram em alguma instância.

Nos dois poemas que se encontram abaixo, pode-se perceber a admiração de Ricardo Reis e Álvaro de Campos a Alberto Caeiro, chamando-lo de “mestre”. O tratam de mestre por ter este último criado teorias sobre como se deve encarar o mundo que os outros dois gostariam muito de seguir e, no entanto, não conseguem. Entretanto, o mais impressionante é que nem Ricardo Reis nem Álvaro de Campos existiram e admiram um terceiro que tão pouco é real. Cada um desses personagens é um pouco de cada ser humano e Pessoa foi capaz de observar estilos reais de vida e ficcioná-los de forma bastante verossímil.

Foi então na heteronímia que Pessoa colocou em prática todas as teorias citadas acima; é a concretização máxima de tudo o que vinha sendo pensado a cerca do processo criativo que incluem o fato de que composição de um texto literário é transpiração e que este não é advindo, necessariamente, da experiência vivida.

 

Por Flávia Leite

Sócia Fundadora Ateneo Idiomas

Os poemas citados são:

Mestre – Álvaro de Campos

http://www.revista.agulha.nom.br/facam21.html

Mestre –   Ricardo Reis

http://www.jornaldepoesia.jor.br/rico05.html

 

[1] WORDSWORTH, Willian. Prefácio às baladas líricas In: LOBO, Luiza (org.) Teorias poéticas do Romantismo. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1987.

[2] Poe em “Filosofia da composição” chega a afirmar que para a produção de “O corvo” “…o trabalho caminhou, passo a passo, até completar-se com a precisão e a seqüência rígida de um problema matemático” (pg.62).

[3] Exceto Umberto Eco que já é um escritor do século XX e além disso é italiano.

[4] “Carta a Adolfo Casais Monteiro” Fernando Pessoa.

[5] Termo que faz referência ao que Eliot diz a respeito do processo de produção literária.

Dom Quixote e a popularização da “boa” arte

Don Quijote - Van Gogh

Don Quijote – Van Gogh

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Algumas razões para ler Dom Quixote – O Cavaleiro da Triste Figura de Miguel de Cervantes.

Esse post veio da minha jornada que já dura mais de três ano de ler a tão aclamada história do Cavaleiro da Triste Figura, em español e com várias notas de rodapé.

Cervante já sabia: começa seu livro dizendo ” Desocupado lector:”… estava certo…. pra ler sua obra o animadíssimo leitor deve estar, além de bem disposto, bastante desocupado…. ou então ser um leitor profissional, como é o meu caso com a literatura de língua espanhola.

Mas deixando tudo isso de lado – porque aí o blog adquire um tom de diário que nem é meu objetivo – o que gostaría de compartilhar é a supresa que tive durante essa leitura (e como invariávelmente acontece quando se trata de literatura) quando um dos inumeráveis personagens que atravessam o caminho de Dom Quixonte começa a conversar com um padre sobre um objetivo antigo de escrever um romance de cavalaria que criticasse a própria forma vazia com que eram feitos os romances de cavaleria de então – qualquer semelhança que esse personagem tenha com o autor do livro, Cervantes, não é mera coincidências, nesses casos não existem acasos – .

(Nota: “romance de cavalaria” é um gênero literário com cavaleiros medievais, armados com um armadura de bronze, que caminhavam sempre com um fiel escudeiro, atrevessando montes, vales, salvando donzelas indefesas, injustiçados, enfrentando dragões e feiticeiros. Era um dos principais divertimentos na época de Cervantes e eram duramente criticadas pela camada cult dessa época)

 Esse personagem que cruza o caminho de Dom Quixote já tinha escrito mais ou menos cem páginas de seu romance e apresentado para diversas parcelas da sociedade de então: cultos, sábios, escritores e a classe baixa a que realmente era apaixonada pelos romances que estavam na moda  e sempre obteve deles um respaldo positivo, dizendo que seu texto era bom e agradava a todos.

Mas quando esse personagem resolveu apresentar seu texto para os atores e diretores teatrais para a representação do mesmo em teatros e praças públicas, ou seja, para o povo, a reação foi negativa e o principal argumento era o de que o povo não gostava dessas artes mais elaboradas, que não as entendiam e que não vendia. O famoso atual “dar ao povo o que ele quer”.

Desculpa comum que justifica a perpetuação de maus programas de humor, por exemplo, ou a publicação de best sellers sem um trabalho mais profundo de personagens ou sem inovação na escrita, ou mesmo a crítica aos trabalhos artísticos mais densos que muitas vezes vemos na atualidade.

O que ele quis mostrar (e mostrou) é que é fácil escrever textos idiotas para agradar ao público supostamente”idiota”, mas esse tipo de literatura (ou arte em geral) não é perene, rapidamente cai no esquecimento do público já que é uma obra de fácil digestão e trata de temas que não são de fato relevantes ao público. Mas, quando o artista pensa em oferecer algo mais ao público popular, isso sim se mantêm na linha do tempo.

Cabe ressaltar que toda essa reflexão aparece nessa conversa  com o padre e dessa forma o autor entra no seu próprio livro, em forma de personagem, e explica seu motivo de escrever Dom Quixote e também seu ponto de vista sobre a arte.

E aí está o Cavaleiro com seus quatrocentos e poucos anos de genialidade, perene e mítico.

Obs: Dom Quixote foi tão estudado nas academias que algumas universidades já não aceitam mais artigos sobre o Cavaleiro da Triste Figura.

Por Flávia Leite

Sócia Fundadora da Ateneo Idiomas

Professora de Língua Espanhola