Dom Quixote e a popularização da “boa” arte

Don Quijote - Van Gogh

Don Quijote – Van Gogh

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Algumas razões para ler Dom Quixote – O Cavaleiro da Triste Figura de Miguel de Cervantes.

Esse post veio da minha jornada que já dura mais de três ano de ler a tão aclamada história do Cavaleiro da Triste Figura, em español e com várias notas de rodapé.

Cervante já sabia: começa seu livro dizendo ” Desocupado lector:”… estava certo…. pra ler sua obra o animadíssimo leitor deve estar, além de bem disposto, bastante desocupado…. ou então ser um leitor profissional, como é o meu caso com a literatura de língua espanhola.

Mas deixando tudo isso de lado – porque aí o blog adquire um tom de diário que nem é meu objetivo – o que gostaría de compartilhar é a supresa que tive durante essa leitura (e como invariávelmente acontece quando se trata de literatura) quando um dos inumeráveis personagens que atravessam o caminho de Dom Quixonte começa a conversar com um padre sobre um objetivo antigo de escrever um romance de cavalaria que criticasse a própria forma vazia com que eram feitos os romances de cavaleria de então – qualquer semelhança que esse personagem tenha com o autor do livro, Cervantes, não é mera coincidências, nesses casos não existem acasos – .

(Nota: “romance de cavalaria” é um gênero literário com cavaleiros medievais, armados com um armadura de bronze, que caminhavam sempre com um fiel escudeiro, atrevessando montes, vales, salvando donzelas indefesas, injustiçados, enfrentando dragões e feiticeiros. Era um dos principais divertimentos na época de Cervantes e eram duramente criticadas pela camada cult dessa época)

 Esse personagem que cruza o caminho de Dom Quixote já tinha escrito mais ou menos cem páginas de seu romance e apresentado para diversas parcelas da sociedade de então: cultos, sábios, escritores e a classe baixa a que realmente era apaixonada pelos romances que estavam na moda  e sempre obteve deles um respaldo positivo, dizendo que seu texto era bom e agradava a todos.

Mas quando esse personagem resolveu apresentar seu texto para os atores e diretores teatrais para a representação do mesmo em teatros e praças públicas, ou seja, para o povo, a reação foi negativa e o principal argumento era o de que o povo não gostava dessas artes mais elaboradas, que não as entendiam e que não vendia. O famoso atual “dar ao povo o que ele quer”.

Desculpa comum que justifica a perpetuação de maus programas de humor, por exemplo, ou a publicação de best sellers sem um trabalho mais profundo de personagens ou sem inovação na escrita, ou mesmo a crítica aos trabalhos artísticos mais densos que muitas vezes vemos na atualidade.

O que ele quis mostrar (e mostrou) é que é fácil escrever textos idiotas para agradar ao público supostamente”idiota”, mas esse tipo de literatura (ou arte em geral) não é perene, rapidamente cai no esquecimento do público já que é uma obra de fácil digestão e trata de temas que não são de fato relevantes ao público. Mas, quando o artista pensa em oferecer algo mais ao público popular, isso sim se mantêm na linha do tempo.

Cabe ressaltar que toda essa reflexão aparece nessa conversa  com o padre e dessa forma o autor entra no seu próprio livro, em forma de personagem, e explica seu motivo de escrever Dom Quixote e também seu ponto de vista sobre a arte.

E aí está o Cavaleiro com seus quatrocentos e poucos anos de genialidade, perene e mítico.

Obs: Dom Quixote foi tão estudado nas academias que algumas universidades já não aceitam mais artigos sobre o Cavaleiro da Triste Figura.

Por Flávia Leite

Sócia Fundadora da Ateneo Idiomas

Professora de Língua Espanhola

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